ARTIGO JORNAL A TARDE | Vinho “Los Escravos”. Notas de sangue e sofrimento.

A notícia de 200 trabalhadores baianos resgatados da condição análoga a escravo no RS chocou o país. Saber que grandes vinícolas utilizam trabalho escravo, azedou a safra. Agora, o poder público corre para remediar a situação: trabalhadores são recebidos com zelo e atenção por diversos órgãos públicos no seu estado de origem. Mas este não é um fato isolado.

A época da vindima, – colheita da uva – remonta a mais de um século quando seu cultivo foi introduzido pelos colonos italianos na serra gaúcha, portanto a safra da uva no RS acontece em um calendário determinado, bastava ir lá e verificar. Porque isso não aconteceu! A situação só veio ao conhecimento das autoridades, devido a denúncia de trabalhadores que fez o estado brasileiro “acordar” e ver que parte do vinho gaúcho está sendo produzido com trabalho escravo!

A pergunta é: porque somente agora o estado brasileiro agiu. As respostas são várias. Em tempos de uma ética global de precarização de direitos, naturalizou-se o aviltamento ao trabalho, – tanto por quem avilta, (vide fala do vereador gaúcho), tanto quanto por quem é aviltado -, vítimas resignadas por não encontrarem alternativas ou a proteção do estado. A terceirização ampla e irresponsável, que permite aos verdadeiros responsáveis, dizerem que “não sabiam” o que acontecia dentro de seus vinhedos! E por fim, tornou-se um risco calculado e vantajoso aviltar o trabalho humano posto que a instituição a quem compete a fiscalização destas relações, a Inspeção do Trabalho, está completamente desmantelada.

O governo acaba gastando mais resgatando do que prevenindo porque simplesmente não existe mais efetivo para dar conta da fiscalização das relações do trabalho no Brasil. A ausência de Auditores Fiscais do Trabalho se encarregará de fazer desse episódio mais um que dos que podem estar acontecendo neste momento, seja na área rural ou no meio urbano e doméstico das cidades. Importante lembrar que a Auditoria Fiscal do Trabalho no Brasil, tem quase metade dos seus cargos vagos, (cerca de 1.600), portanto a ausência da presença fiscal é um convite para que situações como esta ocorram. O que espera o novo governo para agir e reaparelhar a Inspeção do Trabalho!

A naturalização do desprezo pelo trabalho humano é uma ética nefasta que tem tomado conta do mundo. Ela está presente no desrespeito a dignidade dos trabalhadores dando lugar a super exploração sem a contrapartida mínima de direitos. Cabe aos comprometidos com um patamar civilizatório mínimo, afastar este cálice amargo da desvalorização do trabalho como ética dominante deste novo milênio enquanto ainda é tempo.

Mário Diniz Xavier de Oliveira – Auditor Fiscal do Trabalho, membro do Instituto Trabalho Digno e Presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais do Trabalho no Estado da Bahia – SAFITEBA.